segunda-feira, 29 de outubro de 2012

FUNERAL

Estou sentada com os pés flexionados juntamente com as pernas dobradas para que eles se encontrem, são tão pequeninos, e o descompasso da falta de simetria da minha estatura para com eles fazem da minha dor una.  Eu os aperto como se quisesse a dor paralisar, porque logo ela desfalecerá e estou com ânsia tremenda da sua chegada.

A prova real da minha imperfeição é fidedigna à reação que meu corpo me causa.
Eu tenho sido o pico da montanha ao canal do mar. Eu tenho sido a contradição dos pleonasmos proferidos em vão. E a dor hoje é a extremidade, que costumeiramente assim é, como se desnecessário fosse explicar esse meu jeito de expressar.

Por que dissertar por tão pouco, e mais, quantas polegadas pretendo alcançar e quantas jardas ultrapassar com mera reflexologia duns pés descalços? Isto seria?

Desmistifico o exposto com sorriso maroto quase que dissimulado o sentir da dor como reação do meu músculo habitado em meu peito que alimenta as minhas células, amavelmente traiçoeiro. As acalenta, sacia, ilude uma existência longínqua, mas está sempre prestes a dar adeus e colocar novas nos lugares seus.

Hoje estou morrendo lentamente, sempre me desfaleço com pouco, dou adeus as angústias, aos instintos, aos prazeres asquerosos com rapidez invejável, mas hoje estou morrendo incrivelmente devagar, tem sido difícil me despregar do desapegar alheio, suplico para que não reajam e não me levem para Unidade Intensiva alguma. Está sendo magnífico a ruptura do meu ser ao mundo neste dia, uma dor incontrolável que não passa mais do que algo suportável.

Poderia me vestir de preto como o passar da minha envaidecida adolescência, mas vou deixar a lua me abraçar com sua claridade que só traz paz, afinal, já é noite.

Não procuro por calçado. Apenas me deixe aqui de lado, sem descaso. 

Saibam o quanto repugno o pecado da vida renunciar, o suicídio é sujo e imundo como as vísceras de um cadáver ao léu, traduzo isso para que pedras não me sejam atiradas antes da possível apologia passear por vossas caixinhas pensantes. Apenas morro a cada dia para aquilo que me desvencilha da arte da vida.

E você, já morreu hoje?


Escrevi ouvindo: Katie Gray - Set Free/The Strokes- you only live once / Daugtry - Home




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